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domingo, 19 de abril de 2026

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A craseado?

A CRASEADO?

É grave o acento do amor, indicando uma crase de aleluias. Dois que não são um mais um; dois corpos como as duas pancadas do relógio indicando uma única hora, a hora de acordar da sesta madrilenha; dois ás de copas, na medicina; dois ás de espadas, na alegria; dois ás de paus, a passeio; dois ás de ouro, em noites de São João. Quem, de outra forma, acentua o amor, não o conjuga bem, nem compreende o que é pronunciado.
O amor é crase que não obedece às normas; fulmina a gramática dos que conhecem o acento, mas não experimentam o fenômeno da pele. Amor em tons agudos e graves, conforme a destilação; em notas ofegantes, repetidamente ensaiadas, prolongadas no último canto de perenidade, quando o erudito e o popular se entregam ao sagrado êxtase. Triste amor, quando a crase é desfeita e cada qual dos ases volta para seu naipe, um esquecido do porre que deu no curinga, o outro mentindo para si mesmo que não gostou de ter aprendido a arte de gravear.
Preposição e artigo, unidos em forma de igualdade. O artigo, substantivo masculino, que pode ser ele ou ela, sem erro, tampouco nenhuma pornografia. A preposição, substantivo feminino, que prepucia a crase e faz as relações intensas, sem regidos nem regentes, entregues à unidade, na diversidade. Diálogos que se estabelecem entre Camões e Cervantes, na crase horizontal de céu e terra, onde os lábios de aqui se encontram com os lábios de aí.
Quatro mãos em crase, nas fogueiras que inquisicionam a solidão. Olhos em crase, mergulhados no gótico que assistiu ao nosso matrimônio. Pés em crase, na readequação dos nossos ventrículos. Primeira e segunda voz, crase polifônica de compassos geográficos distintos, sob a pausa de serras metrificadas pela liberdade de quem solfeja a palavra, ao ouvido faminto da língua. Nòs (sic!), crase em primeira pessoa, indicando um eu que sonha e um tu que desenha o acento, no tamanho da liberdade.

@gleiberdantas – Florânia, 07 de setembro de 2016.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

NÃO SEI POR QUE NASCI




NÃO SEI POR QUE NASCI
Sinto chegar-me, enfim, mais um agosto
no calendário frio da existência;
as rugas que descubro no meu rosto
são marcas de pesar por tua ausência!
Busco sentir, ainda, toda essência
dos beijos que te dei, o doce gosto
do batom perturbando a transparência 
do lenço, onde pranteio o meu desgosto...
Este passado preso à minha mente
só me deprime, só me faz descrente
do amor, da paz, de tudo que perdi!
Nesta data eu reflito e questiono
a razão de uma vida de abandono:
eu já nem sei, sequer, por que nasci!
   Eraldo Gomes de Oliveira

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Viver é caminhar



VIVER É CAMINHAR
Viver é caminhar. No início, você traça sua rota e prefere caminhar sozinho. Até que consegue chegar mais longe do que pensava, no primeiro dia. No dia seguinte, bate mais uma meta e vai além do que estava em seus planos. No terceiro dia, quando você ainda é o melhor expectador de si próprio, consegue ainda se surpreender, e assim se passam os dias. Você é você, e isto lhe basta. Com mais uma ou duas luas, você estranha como é que tudo mudou rapidamente. Caminhar sozinho é mais fácil porque lhe dá uma certa independência, a liberdade de poder fazer como bem quiser sua estrada, de dosar o seu passo conforme seus critérios, mesmo assim você começa a entender que solidão não é estar sozinho, é não estar em paz consigo. Compreende também que a vida é um aprendizado permanente e que o aprendizado se dá com a experiência de quem caminha com os pés, não de quem caminha com planos, cheio de sonhos, esgotado de vontade.
Você vai caminhando e entendendo que apenas seus rastros não fazem o caminho. Abre-se, então, para você novas possibilidades. Seu coração já não está vazio de si mesmo, como quando você iniciou sua trajetória e se fez medida absoluta, dizendo que quem quiser caminhar com você tem que acompanhar seu ritmo. O melhor ritmo é o ritmo do amor. Como disse um amigo, quem aprendeu a ser todo, não quer ser metade nunca mais.
Enquanto você caminha, experimenta o cansaço que você desdenhava nos andejos. Caminhar não para competir, caminhar para aprender. Caminhar para aprender como se ama, pois uma noite de amor não é todo o amor. É o sol que retira o excesso, é ele que sedimenta as verdades, encarregando-se de dar sentido ao suor que ele extrai, enquanto nós vamos cortando caminho. Quem começou sozinho, inteiro no orgulho, espinhoso demais para um abraço, vai amar o sol como nunca o tenha amado. Vai querer seu calor nas noites frias. O sol não é distante e ele sabe nos segurar dentro da vida. Viver é caminhar e o amor é a rota do caminho.
@gleiberdantas – Florânia, 16 de agosto de 2016.